Dentro deste mundo há outro mundo impermeável as palavras. Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes, até mesmo as rochas exalam poesia. Para mudar a paisagem, basta mudar o que sentes. Jalal ud-Din Rumi Neste blog você encontra poesias, textos escolhidos de diversos autores, dicas e alguns textos meus. Um mosaico dos encantos da mandala da vida.
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sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Drummond - Aparição amorosa
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Namorado: Ter ou não ter, eis a questão
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| Gustav Klimt, Adão e Eva |
Quem nao tem namorado é alguém que tirou férias nao remuneradas de si
mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado
de verdade é muito raro. Necessita de adivinhaçao, de pele, de saliva,
lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixao é fácil.
Mas namorado, mesmo, é muito difícil.Namorado nao precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer
proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase
desmaia pedindo proteçao. A proteçao dele nao precisa ser parruda,
decidida, ou bandoleira: basta um olhar de compreensao ou mesmo de
afliçao.Quem nao tem namorado nao é quem nao tem um amor: é quem nao sabe o
gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um
envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode nao ter namorado.Nao tem namorado quem nao sabe o gosto da chuva, cinema sessao das duas,
medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Nao tem
namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar
sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Nao tem namorado quem faz
pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a
felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.Nao tem namorado quem nao sabe o valor de maos dadas; de carinho
escondido na hora que passa o filme; de flor catada no muro e entregue
de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico
Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre a
meia rasgada; de ânsia de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô,
bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.Nao tem namorado quem nao gosta de dormir agarrado, fazer sesta
abraçado, fazer compra junto. Nao tem namorado quem nao gosta de falar
do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro
dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Nao
tem namorado quem nao redescobre a criança própria e a do amado e sai
com ela para parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton
Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical na Metro.Nao tem namorado quem nao tem música secreta com ele, quem nao dedica
livros, quem nao recorta artigos, quem nao chateia com o fato de o seu
bem ser paquerado. Nao tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem
curtir; quem curte sem aprofundar. Nao tem namorado quem nunca sentiu o
gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou
meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. Nao tem namorado quem
ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de
obrigaçoes; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Nao tem
namorado quem confunde solidao com ficar sozinho. Nao tem namorado quem
nao fala sozinho, nao ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.Se você nao tem namorado porque nao descobriu que o amor é alegre e você
vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve,
aquela de chita e passeie de maos dadas com o ar.Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricçoes
de esperança. De alma escovada e coraçao estouvado, saia do quintal de
si mesmo e descubra o próprio jardim.Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua
janela.Ponha intençoes de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de
fada. Ande como se o chao estivesse repleto de sons de flauta e do céu
descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante
a dizer frases sutis e palavras de galanteria.Se você nao tem namorado é porque ainda nao enlouqueceu aquele pouquinho
necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
Enlou-cresça.
sábado, 31 de março de 2012
Anúncio de Viver - Carlos Drummond de Andrade
Preciso anunciar em janeiro, fevereiro e março, a exemplo das grandes empresas. Anunciar o quê, se não sou sequer uma pequena empresa?
Nada. Mas anunciar assim mesmo. Por exemplo, que estou vivo. Muito importante, a declaração da vida. Mais importante que a declaração de bens, por ser a vida um bem maior do que a totalidade de bens que se possam acumular durante a vida.
Mais importante que a declaração de renda, que interessa mais ao Fisco do que a mim. Antes de me cobrar, o Fisco precisa saber se continuo no exercício de viver, pois do contrário não adiantaria cobrar-me. E de que maneira saber se estou vivo, se não saber se não anuncio minha vida, como fazem os automóveis novos e os automóveis usados, os refrigerantes, os detergentes, os espetáculos, as persianas, as cidades turísticas, os planos de desenvolvimento, os cartões de crédito, os cursos de kung-fu, os detetives particulares, os compradores de ouro velho, as viúvas de 35 anos e fina educação, que desejam conhecer cavalheiro de boas maneiras e situação econômica estável para fins de amizade, os tapetes persas e semipersas, os curinhos, os cursilhos, o leite em pó, o papel higiênico, as Letras do Tesouro, os terroristas – é, os terroristas também, anunciando que vão seqüestrar, lançar bomba, fazer explodir o avião?
Nem me digam que o rol está errado, pois as pessoas anunciam, os objetos não; o fabricante deles é que. Perdão, o objeto do anúncio que vale, seja ele pessoa, serviço ou objeto mesmo. Não compro o industrial produtor de detergente, mas este me invade a casa, apregoando suas sublimidades, mal comprimo o botão da TV. E é ele, o detergente que eu vejo, que experimento ou não experimento, mas cuja presença física se impõem, na imagem do vídeo. Assumo com ele relação direta, ocupa espaço em meu di, vive em meu viver, pelo anúncio. Não distingo pois entre anúncio-gente e anúncio-coisa. E não serei eu também coisa, entre coisas, todas necessitando documentar suas vidas coisais?
Então não deixarei de anunciar-me em janeirofevereiromarço. Embolo os meses para tornar mais compacto o ano e, com ele, minha existência. Informarei a todos que tomo café pela manhã. Muito importante, tomar café pela manhã. Nem todos o fazem, não porque falte café, mas porque falta dinheiro para tomá-lo. O pão anda muito branco e sem gosto de pão, até sem forma de pão, aquele bico torradinho que dá tanto gosto trincar? Passarei a consumir acompanhamento mais sofisticado para o café da manhã. Meu status autoriza este privilégio. Lamento que outros patrícios não possam anunciar a mesma coisa.
Vou anunciar as sucessivas operações e fases do meu dia, que pode não ser o mais original do mundo – mas será necessário que os anúncios se mostrem sempre originais na essência, desde que o sejam razoavelmente na forma? Usarei meios originais para anunciar, por exemplo, que ando na rua. Muitos colegas ainda praticam este ato, na medida do possível. Chamarei a atenção para esta circunstância incomum: só ando nas calçadas do lado ímpar. Deixo as calçadas pares à multidão. A imparidade, já celebrada pelo poeta francês, dará a meu anúncio aquele toque de classe que me distinguirá dos demais anunciantes, pois eles costumam andar tanto do lado ímpar como do lado par, os vulgares.
Ao anunciar-me, gratifico-me: vivo e provo estar vivendo. O chuveiro fechado está pingando: é a maneira de anunciar que ele também existe. Procuro o bombeiro que se anuncia com o letreiro da bicicleta à porta do botequim, e ele anuncia que cobra 50 cruzeiros pelo serviço. Pago e vingo-me anunciando-lhe que seu Imposto sobre Serviços aumentou 25%. Ele se vinga de minha vingança lembrando-me que meu Predial aumentou 55%. Tudo é anúncio, bom ou mau, geralmente mau.
Anunciemos. Que remédio!
Extraído de: Os dias lindos - crônicas.
Vidente o Drummond! Nem sei porque isso me lembra o Facebook...rsrsrsrs
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
... Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.
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| Van Gogh |
sábado, 11 de junho de 2011
Drummond
Agora em junho a gente não se enxerga
nítido, no espelho embaciado.
A manhãzinha são nevoeiros
móveis, flocos aspirando
a se tornarem cabrito, padeiro, bicicleta
a um metro de distância.
A fala, brancura de ar. Nem montanha
nem casas em redor.
O tempo suprimiu os estatutos
da vida real. A liberdade
de meus passos fez-se bruma, eu próprio
sou alvo fantasminha divertido.
Experiência de não-ser. Mas sendo para ver.
Boitempo II
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Drummond
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?
Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'
quinta-feira, 3 de março de 2011
Drummond - A hora do cansaço
As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
CONSOLO NA PRAIA
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
segunda-feira, 5 de julho de 2010

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Carlos Drummond de Andrade
domingo, 30 de maio de 2010
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 7 de abril de 2010
O mundo é grande
segunda-feira, 22 de março de 2010
MISSÃO DO CORPO
Claro que o corpo não é feito só para sofrer,
mas para sofrer e gozar.
Na inocência do sofrimento
como na inocência do gozo,
o corpo se realiza, vulnerável
e solene.
Salve, meu corpo, minha estrutura de viver
e de cumprir os ritos do existir!
Amo tuas imperfeições e maravilhas,
amo-as com gratidão, pena e raiva intercadentes.
Em ti me sinto dividido, campo de batalha
sem vitória para nenhum lado
e sofro e sou feliz
na medida do que acaso me ofereças.
Será mesmo acaso,
será lei divina ou dragonária
que me parte e reparte em pedacinhos?
Meu corpo, minha dor,
Meu prazer e transcendência,
És afinal meu ser inteiro e único.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 16 de março de 2010
Tempo e Olfato - Carlos Drummond de Andrade
Que me quer este perfume?Nem sequer lhe sei o nome.
Sei que me invade a narina
como incenso de novena.
Que me passeia no corpo
como os dedos tangem harpa.
E me devolve ao pretérito
e a um ser de lava, quimérico,
ser que todo se esvaía
pela porta dos sentidos,
e do mundo em que saltava,
qual dum espelho lascivo,
retirava a própria imagem
na pura graça da origem...
Cheiro de boca? de casa?
de maresia? de rosa?
Todo o universo: hipocampo
no mar celeste do Tempo.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Carlos Drummond de Andrade
| é |
Amor, pois que é palavra essencial
Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.
E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
Drummond
na anilina dos vasos de farmácia.
Basta olhar e flutuo sobre o verde
não verde-mata, o verde além-do-verde.
E o azul é uma enseada redoma.
Quisera nascer lá, estou nascendo.
Varo a laguna de ouro do amarelo.
A cor é o existente; o mais, falácia.
BOITEMPO - Carlos Drummond de Andrade



